Em uma pequena igreja Adventista do Sétimo Dia em Cleveland, Ohio, Estados Unidos, fiéis da Rússia e da Ucrânia se ajoelham lado a lado. Reina a paz, desafiando a guerra que divide suas nações de origem. Essa congregação única canta, ora, estuda e convive unida, sem vestígios das dolorosas divisões ou do ódio que marcam o conflito entre seus países.
A história da igreja começou quando Gennadii Kasap chegou a Cleveland em um momento de grandes desafios. Antes de sua chegada, havia apenas um pequeno grupo de membros eslavos na região, principalmente uma família ucraniana que frequentava uma igreja formada apenas por membros norte-americanos.
“Cheguei a Cleveland em 10 de março de 2022, apenas algumas semanas depois do início da guerra, em 24 de fevereiro”, contou Kasap. “Claro que o início da guerra trouxe certos problemas já no começo do meu ministério.”
Vindo de Moscou, Rússia, Kasap enfrentou uma resistência inicial ao tentar formar a Igreja Adventista do Sétimo Dia Missão Eslava da Associação de Ohio. No entanto, ele acreditava que a proximidade da congregação com Deus superaria a negatividade ao redor.
Andriy Skitsko, hoje um dos membros ucranianos da igreja, admite com franqueza: “No começo, eu era categoricamente contra fazer parte de uma igreja com um pastor de fala russa, especialmente alguém vindo de Moscou. Tive uma experiência ruim ao frequentar a mesma igreja que russos. Me imaginava como membro de uma igreja americana, já que moro nos EUA, ou de uma igreja ucraniana, já que sou ucraniano.”
Contudo, sua perspectiva mudou após uma conversa com Kasap.
“Percebi que o pastor é uma pessoa verdadeiramente espiritual, sem superioridade imperialista”, compartilhou. Após conversar com sua esposa, tomaram uma decisão importante: “Decidimos apoiá-lo em seu ministério. Se este for um projeto humano, não terá sucesso e não haverá uma igreja eslava. Mas, se for de Deus, não temos o direito de recusar apoio ao pastor. E não nos arrependemos.”
Segundo Skitsko, o ministério altruísta de Kasap teve um impacto profundo na congregação. Kasap está aprendendo ucraniano e canções ucranianas, o que permite que os cultos sejam realizados tanto em ucraniano quanto em russo. Para Skitsko, esses gestos de inclusão o fizeram sentir-se acolhido e valorizado. Com poucos membros no início, a igreja agora conta com mais de 40 fiéis.
Karina Kolotilina, uma membro russa da igreja, faz questão de manter um relacionamento respeitoso com os companheiros de fé ucranianos. Reconhecendo a barreira linguística, ela comenta: “Sempre procuro não ferir os sentimentos dos ucranianos e demonstrar respeito pelo idioma deles, mesmo sem entendê-lo muito bem. Atuo no ministério de música, e regularmente cantamos em ucraniano — uma iniciativa do nosso pastor que apoio plenamente. Isso garante que todos possam adorar no idioma que preferem.”

A igreja continua sendo um local de unidade apesar do conflito no exterior, demonstrando uma dedicação inabalável a Jesus.
Com cerca de 50% dos membros falantes de russo e os outros 50% falantes de ucraniano, a igreja promove intencionalmente a inclusão. Os cultos, slides e cânticos congregacionais são realizados em ambos os idiomas.
Nenhum dos integrantes da equipe de louvor fala ucraniano fluentemente, mas todos se esforçam para aprender hinos ucranianos. Esse esforço reflete a crença comum de que “o céu é para todos”.
Kristina Kasap, filha de Gennadii e integrante da equipe de louvor, explica: “Metade das músicas que cantamos é em russo e a outra metade em ucraniano.”
Tatiana Druzhenkova, cuja família chegou recentemente aos Estados Unidos vinda da Rússia, expressou profunda gratidão pelo apoio que a igreja lhes ofereceu. Ao refletir sobre a unidade da congregação, compartilhou que o que está acontecendo ali é uma oportunidade para mostrar ao mundo que “Deus não tem nacionalidade”.
O vínculo cristão entre os membros russos e ucranianos vai além dos muros da igreja. “Eles não apenas adoram juntos, mas também se ajudam mutuamente”, afirmou Kasap.
“Como alguns dos nossos irmãos ucranianos estão aqui há mais tempo, geralmente são eles que mais ajudam os irmãos russos — com comida, móveis, trabalho e até convidando-os para suas casas.”

O senso de unidade da igreja local é reforçado pelas iniciativas da congregação. Um dos projetos é um programa de piqueniques, no qual os membros convidam amigos para socializar e compartilhar refeições, com o objetivo de reconstruir amizades e fortalecer os laços. A igreja também ajuda ativamente os recém-chegados a se adaptarem ao novo ambiente, independentemente de virem da Ucrânia ou da Rússia.
Quando Vladislav Kolotilin e sua família — adventistas russos — fugiram de seu país, enfrentaram emoções mistas.
Refletindo sobre a jornada, Kolotilin compartilhou: “No fim de agosto de 2023, fomos forçados a deixar nossa querida São Petersburgo devido à perseguição das autoridades por expressarmos publicamente nossas opiniões religiosas e nossa posição claramente contrária à guerra. Tivemos que abandonar nossos bens e nosso negócio. Apesar da incerteza, não tínhamos dúvida de que seríamos livres nos Estados Unidos.”
Kasap convidou a família para se unir à congregação eslava de Cleveland. Kolotilin lembrou da apreensão inicial: “Estávamos ansiosos e incertos sobre como seríamos recebidos pelos irmãos ucranianos da igreja. Sabíamos que alguns poderiam se incomodar ao ouvir o idioma russo.” No entanto, seus temores desapareceram rapidamente.
“O acolhimento dos membros ucranianos superou todas as nossas expectativas. Fomos recebidos com calor, ajudados com comida e roupas, e recebemos apoio em todas as nossas necessidades.”
Kolotilin destaca a história e os laços compartilhados entre russos e ucranianos, lembrando como seus países coexistiram pacificamente no passado como vizinhos, com “línguas, cultura, culinária e estilo de vida semelhantes.” Embora a guerra tenha dividido as nações, ele reflete: “Ela não nos dividiu dentro da igreja. Temos algo muito mais importante em comum: nosso Pai celestial.”
Sofiia Zaviriukha, membro ucraniana, fala com emoção sobre sua terra natal. “Amo meu país e, claro, quero contribuir para sua prosperidade. A guerra me afetou profundamente e sinto que a vida se dividiu em ‘antes’ e ‘depois’”, compartilhou.
Lidiya Zabrecky, outra membro ucraniana, reflete com esperança sobre sua experiência na igreja: “Na minha igreja há pessoas que vieram da Rússia [...] Essas pessoas são meus irmãos e irmãs em Cristo, filhos de Deus na grande família divina. Acredito que Deus é o Criador de todos e morreu por todos.”
Vladimir Druzhenkov, membro russo, acredita que sua fé foi essencial para lidar com os desafios e emoções provocados pela guerra. Ele entende que a Bíblia previu guerras e rumores de guerra antes da segunda vinda de Jesus. Ainda assim, Druzhenkov expressa profunda tristeza com a situação atual.
“É claro que lamentamos muito que esteja havendo operações militares em larga escala na Ucrânia, e oramos para que cessem em breve”, disse.
Para Druzhenkov, o lema da igreja — “O céu é para todos” — tem sido uma fonte de inspiração. Ele atribui a essa mensagem unificadora o fortalecimento de uma atmosfera de “amizade, bondade e espírito de oração” dentro da congregação.
Gregory Arutyunyan, pastor adventista aposentado da Rússia e hoje membro da igreja, expressou sua alegria ao testemunhar a unidade entre os fiéis.
“É maravilhoso ver todos os membros — ucranianos, russos e outros — tão unidos, em paz e se amando como se nunca tivesse havido uma guerra”, afirmou.
Ele elogia Kasap por sua liderança e pelo bom espírito dos membros, acrescentando: “Tenho muito orgulho de fazer parte dessa congregação.”
A versão original deste artigo foi publicada no site da Columbia Union Visitor. Siga a ANN nas redes sociais e entre no canal no WhatsApp da ANN para acompanhar as últimas notícias da Igreja Adventista.