Nas primeiras horas da manhã, muito antes de a maioria dos delegados entrar no imenso America’s Center para a Assembleia da Associação Geral, Ken Logan já está sentado ao órgão. Ele começa a maioria dos dias às 7h15, oferecendo um prelúdio que serve como ponte para o culto. É um ritual silencioso que logo se transforma em algo muito maior: a trilha sonora para os mais de dois mil delegados esperados diariamente.
Para Logan, esse encontro global, que acontece de 3 a 12 de julho, é uma dança de notas e intuição.
“Um dia eu não toquei nada. Hoje [terça-feira], toquei bastante,” comenta ele sobre sua atuação durante as reuniões administrativas. Seu trabalho se ajusta ao ritmo da assembleia — desde o culto às 8h30 até as transições para a oração e os longos blocos administrativos, das 9h30 ao meio-dia e das 14h às 17h. Às 13h15 e 18h15, ele adiciona as chamadas “pontes” — músicas que elevam o espírito ou acalmam os ânimos.
Entre esses momentos, Logan raramente fica parado. Em um pequeno escritório nos bastidores, ele pratica em um teclado silencioso, revisa a agenda do dia e observa sinais sutis.
“É um desafio,” admite. “Nunca sei exatamente quando vou entrar. Posso acabar tocando durante uma votação, especialmente se for demorada. Ou então preencho o tempo enquanto alguém redige uma emenda para ser exibida nas telas.”
Todd McFarland, o parlamentarista da igreja, é seu principal ponto de contato, principalmente por meio de gestos com as mãos, acenos de cabeça e sinais simples. “É tudo bem pouco tecnológico,” brinca Logan. “Mas estou sempre atento. Estar preparado faz parte do trabalho.”
O Privilégio do Poder Sutil
Observar Logan em ação é testemunhar alguém profundamente sintonizado com a atmosfera invisível do ambiente. Esta é sua quinta vez atuando como organista principal na Assembleia da Associação Geral, desde sua primeira participação em 2005 — também em St. Louis.
“Não sei exatamente como aconteceu,” diz ele sobre aquele início. “Eu estava na Pioneer Memorial Church [no campus da Universidade de Andrews] naquela época, então já era conhecido. Mas toquei bem pouco — quinta, sexta e sábado. Foi algo bem limitado.”
Desde então, o papel cresceu. “Antes havia mais de um organista. Às vezes ainda há, especialmente quando alguém vem com um grupo. Mas é mais simples coordenar com uma só pessoa. Há muito acontecendo nos bastidores — hinos, transições, cooperação com a liderança. Talvez, ao longo dos anos, tenha sido mais prático ter um ponto de contato único.”
Mas para Logan, não se trata apenas de praticidade. “Tem gente que viaja de muito longe, às vezes com bastante sacrifício, só para cantar ou tocar uma vez. Eu tenho o privilégio de tocar muitas vezes. Levo isso a sério: fazer parte da experiência espiritual que os delegados vivenciam — mesmo em algo tão técnico como uma votação.”
O Peso da Nota Certa
É fácil pensar na música da igreja apenas como um enfeite, mas para Logan — que atua como organista da Pioneer Memorial Church há 29 anos — ela se aproxima muito mais de um ofício moral. Suas escolhas musicais durante momentos de votação, frequentemente marcados por tensão e expectativa, nunca são aleatórias.
Durante a polêmica votação sobre a ordenação de mulheres em 2015, Logan escolheu com extremo cuidado:
“Eu precisava enfatizar a unidade. Então toquei "How Firm a Foundation" e "The Church Has One Foundation", hinos que nos lembram quem somos juntos — sem tomar partido.”
Ele compreende bem como a música pode influenciar interpretações: “Você pode, sim, tomar partido por meio da música,” afirma. “Se alguém acabou de fazer um discurso apaixonado, aquele provavelmente não é o momento de tocar algo sobre perdão. Isso poderia soar como se a pessoa precisasse ser perdoada por ter falado.”
Às vezes, o objetivo é acalmar os ânimos: “Quando há debates intensos, vai e vem, tensão… eu tento trazer calma. Discussões vigorosas, até divergentes, são importantes. Mas também chega o momento de lançar um senso de unidade sobre o auditório.”
Em outras ocasiões, ele busca tocar os corações de maneira intencional: “Quando tocar 'Give Me the Bible'? É um hino neutro, mas ao mesmo tempo é uma declaração. Ele transmite uma mensagem aos delegados.”
Sempre Praticando
Mesmo após décadas ao órgão, Ken Logan continua praticando — literalmente. Este ano, antes de chegar a St. Louis, ele participou de um retiro de composição na Colúmbia Britânica.
“Não fiquei muito tempo ao teclado lá, então, na semana anterior à assembleia, precisei me preparar fisicamente de novo. Praticar, alongar, ajustar a coordenação entre os olhos e as mãos.”
Ele também preparou peças especiais, incluindo uma fuga tradicional baseada no hino “Lift Up the Trumpet”, que ainda está considerando tocar antes do fim da assembleia. “Praticar continua sendo essencial. Sempre é.”
Até o calçado é parte de um ritual silencioso: sapatos especiais de organista, com solado fino e salto discreto, que permitem precisão no uso dos pedais. “Quase não tiro eles durante o dia. São perfeitos.”
O Cálculo Silencioso da Influência
De seu pequeno espaço nos bastidores, Logan permanece em constante estado de atenção, pronto para responder a um leve olhar de Todd McFarland ou à temperatura crescente de um debate no plenário. Nesses momentos, suas escolhas musicais — uma melodia suave de “He Leadeth Me” ou um eco discreto de “My Father Is Rich in Houses and Lands”, quando o tema é tesouraria — espalham-se de forma quase imperceptível para a maioria dos delegados.
“Existe muita intencionalidade,” ele explica. “Não estou ali apenas tocando; estou perguntando o que precisamos musicalmente, agora, neste contexto.”
É uma forma de mordomia — tão significativa, à sua maneira, quanto um voto declarado ou uma regra parlamentar. “É um privilégio fazer parte disso,” afirma Logan.
E então, em um gesto já ensaiado, ele calça novamente seus sapatos de organista — pronto mais uma vez para observar, esperar e moldar a alma da igreja global com nada além de música a serviço de Deus.
A versão original deste artigo foi publicada no site de notícias da União do Lago. Entre no canal da ANN no WhatsApp para acompanhar as últimas notícias da Igreja Adventista.








