Uma pesquisa com potencial para transformar a indústria global de alimentos foi destaque na Conferência Anual de Pesquisa 2026 da Universidade do Norte do Caribe (UNC), evidenciando novas abordagens nas áreas de ciência dos alimentos e sustentabilidade.
O evento, realizado de 7 a 8 de abril de 2026 sob o tema “Evidências Científicas Transformando Mentes, Culturas e Futuros”, reuniu cientistas, acadêmicos e líderes intelectuais para compartilhar descobertas em diversas áreas do conhecimento.
Uma das apresentações de destaque foi conduzida por Joneshia Bryan-Thomas, professora assistente de biologia, cuja pesquisa investiga o uso de compostos de origem vegetal na conservação de alimentos.
O estudo de Bryan-Thomas concentra-se em extratos derivados de Morus nigra e Fragaria spp., variedade Albion — plantas comuns no Caribe, mas que vêm sendo apontadas como ferramentas promissoras na ciência e conservação de alimentos.
“Se esses compostos são suficientemente potentes para inibir organismos que causam doenças em humanos, por que não estamos aproveitando melhor seu uso nos sistemas alimentares que atendem esses mesmos pacientes?”, questionou Bryan-Thomas aos participantes.
Os resultados destacam a capacidade desses extratos vegetais de atuar tanto como agentes antimicrobianos quanto antioxidantes, oferecendo uma solução de dupla função para problemas relacionados à deterioração e à segurança dos alimentos.
Segundo especialistas, a pesquisa surge em um momento em que o uso de conservantes sintéticos está sob crescente atenção global. Aditivos como BHA, BHT, nitritos e sulfitos, amplamente utilizados para prolongar a vida útil dos alimentos, vêm sendo cada vez mais associados a preocupações de saúde e a questões regulatórias.
“A urgência é significativa e crescente”, afirmou Bryan-Thomas. “Já temos evidências de danos, mas a indústria carece de alternativas naturais que sejam escaláveis e cientificamente validadas.”
O objetivo de seu trabalho é preencher essa lacuna ao fornecer dados mensuráveis e baseados em evidências, capazes de orientar tanto políticas públicas quanto práticas industriais.
Além dos mercados globais, as implicações para o Caribe são especialmente relevantes. Bryan-Thomas destacou que a deterioração de alimentos continua sendo um grande desafio regional, impulsionado pelo clima tropical, infraestrutura inconsistente de refrigeração e forte dependência de importações.
“A deterioração de alimentos no Caribe não é apenas uma questão econômica; é uma questão de segurança alimentar. As perdas pós-colheita em algumas categorias ultrapassam 30% a 40%”, disse.
Ao utilizar plantas cultivadas localmente, como amoreira e morango, a pesquisa aponta para soluções sustentáveis e acessíveis na região. “Não se trata de tecnologias importadas. São recursos que já temos”, afirmou a professora da UNC.
Um aspecto relevante do estudo é a integração entre o conhecimento tradicional e métodos científicos modernos. Ambas as plantas possuem longa história de uso medicinal em diversas culturas.
“O conhecimento tradicional é o ponto de partida. A ciência nos permite traduzir esse conhecimento em soluções práticas, baseadas em evidências”, disse.
Por meio de um detalhado perfil fitoquímico, sua equipe identificou compostos bioativos essenciais, como flavonoides e fenóis, responsáveis pelas propriedades antimicrobianas e antioxidantes dos extratos.
Os organizadores da conferência destacaram que o estudo está alinhado ao tema deste ano, demonstrando como abordagens baseadas em evidências podem influenciar tanto a mentalidade quanto a prática. “A ciência não apenas descreve o mundo como ele é. Ela estabelece a base de evidências para o mundo como ele pode ser”, afirmou Bryan-Thomas.
Seu trabalho desafia pressupostos consolidados na indústria alimentícia, especialmente a ideia de que aditivos sintéticos são inerentemente superiores. “Quando cientistas observam resultados estatisticamente significativos a partir de plantas cultivadas no Caribe, isso representa uma mudança de mentalidade”, acrescentou.
Ao final da conferência, Bryan-Thomas incentivou jovens pesquisadores a buscarem trabalhos relevantes e com foco no impacto. “Comece com uma pergunta que realmente importe para você. E sempre pense em quem se beneficia da sua pesquisa”, disse.
Os organizadores afirmaram que a apresentação destacou uma mensagem mais ampla que emergiu do evento: pesquisas lideradas no Caribe têm capacidade não apenas de enfrentar desafios regionais, mas também de contribuir para o avanço científico global.
Eles acrescentaram que, com a crescente demanda por sistemas alimentares mais seguros e sustentáveis, estudos como este podem em breve sair do laboratório para o mercado, marcando uma mudança significativa na forma como os alimentos são conservados, produzidos e consumidos em todo o mundo.
O artigo original foi publicado no site de notícias da Divisão Interamericana.






