No dia 9 de novembro de 2025, mais de 100 pessoas se reuniram na rua East 22nd Street, em Paterson, Nova Jersey, Estados Unidos, para testemunhar uma homenagem rara: a inauguração da Ora Jane Bell Way. A placa de rua vermelha e branca, com a inscrição “A caridade vê a necessidade, não a causa”, marcou um reconhecimento público às décadas de compaixão, resiliência e fé de Bell.
Nascida em Nova Jersey, filha de pais oriundos do sul dos Estados Unidos, Bell foi criada com um forte senso de responsabilidade para com o próximo. Ela atribui às raízes de sua mãe na Carolina do Sul a formação de valores que colocavam o serviço ao outro no centro da vida cotidiana. Ao longo dos anos, Paterson deixou de ser um polo industrial para se tornar uma cidade diversa, com expressivas comunidades latina e palestina, mas, segundo os organizadores, o compromisso constante de Bell com seus vizinhos permaneceu inabalável em meio às transformações da cidade.
Ao ser questionada sobre a mudança do nome da rua, Bell reagiu com emoção.
“Foi... algo que a gente nem consegue imaginar. E a melhor parte é que eu ainda estou viva. Normalmente, eles dão o nome de ruas às pessoas depois que elas morrem”, disse.
Familiares e líderes comunitários participaram da cerimônia, incluindo os quatro filhos de Bell, representantes civis, membros da igreja e da comunidade, além do diretor de Serviços Comunitários Adventistas da Divisão Norte-Americana, W. Derrick Lea. Os convidados usaram bottons criados por sua filha, Rhonda, com as inscrições “East 22nd Street” e “Ora Jane Bell Way”.
Em suas palavras de abertura, André Sayegh, prefeito de Paterson e morador da cidade, declarou: “Poderíamos ter chamado esta rua de Ora Jane Bell Boulevard. Poderíamos tê-la chamado de Ora J Bell Street. Mas a chamamos de Ora Jane Bell Way porque o caminho dela é guiado por Deus, e o caminho dela é servir os mais vulneráveis, aqueles que muitas vezes não têm voz.”
A busca de Bell por respostas acabou levando-a à Igreja Adventista depois que ela preencheu um cartão solicitando a coleção de livros infantis The Bible Story, de Arthur Maxwell. Segundo Bell, inicialmente ela queria os livros para ensinar crianças em sua igreja nas manhãs de sábado, enquanto os pais resolviam compromissos. Após mais de um ano de estudos bíblicos com três colportores, ela foi batizada em 1978, aos 25 anos.
Ingressar na igreja aprofundou ainda mais sua dedicação ao serviço, afirmou Bell. “Quando entrei para a igreja, lá nos anos setenta, todo mundo tinha algo para fazer. Você não ia à igreja apenas para sentar”, explicou, acrescentando que passou a se envolver imediatamente com os Serviços Comunitários.
O histórico de atuação de Bell inclui ministérios adventistas e organizações comunitárias. Há 18 anos, ela atua como voluntária na Eva’s Soup Kitchen e, desde que se aposentou, dedica todas as segundas-feiras ao trabalho no local. Ela também teve um papel fundamental em uma despensa de alimentos comunitária adventista que, no auge da pandemia de COVID-19, distribuiu centenas de cestas de alimentos por semana. “Foi somente pela graça de Deus que conseguimos seguir em frente”, disse ela, ao recordar os desafios iniciais para transportar os alimentos antes de contar com apoio regular de entrega. Segundo os organizadores, a despensa continua atendendo cerca de 350 pessoas na primeira e na terceira quarta-feira de cada mês.
Por trás de suas décadas de serviço, houve períodos de luta pessoal e profissional. Bell enfrentou anos de instabilidade financeira, chegando a depender de assistência pública, experiências que mais tarde a motivaram a se tornar a primeira pessoa de sua família a concluir um curso superior. Ela também perdeu um emprego no sistema de justiça criminal por se recusar a trabalhar aos sábados, mas vê essas dificuldades como formadoras.
“Deus tem planos para você que você nem imagina”, refletiu. Essas experiências aprofundaram sua empatia no trabalho no Conselho de Serviços Sociais do Condado de Passaic e ampliaram sua capacidade de defender famílias que enfrentam desafios relacionados à alimentação, moradia e saúde mental.
O conselho de Bell para os jovens que desejam servir é direto e prático: “Sejam gentis com as pessoas. Não desprezem ninguém; poderia ter sido você.”
Ao longo dos anos, essa bondade muitas vezes significou abrir a própria casa para quem precisava, oferecendo abrigo quando não havia mais a quem recorrer. Ela também fala abertamente sobre os desafios crescentes do serviço em um mundo cada vez mais inseguro, relatando a experiência difícil de alguém que ela havia ajudado e que depois invadiu sua casa.
Ao ser questionada sobre o legado que espera que a Ora Jane Bell Way deixe para as crianças que crescerem ali, Bell respondeu: “Que elas se importem com as pessoas, que não julguem o que alguém fez e que se disponham a servir como voluntárias.” E, se Paterson pudesse ouvir hoje uma mensagem sua, seria esta: “Antes de tudo, amem a si mesmas. E, se conseguirem amar a si mesmas, poderão amar os outros.”
Christelle Agboka contribuiu para este artigo.
A versão original deste artigo foi publicada no site da Divisão Norte-Americana.









