Na Educação Adventista, o trabalho realizado em sala de aula, nos setores administrativos e nas áreas de apoio pode ir além do cumprimento de uma função profissional. Quando educadores e demais colaboradores reconhecem que suas atividades contribuem para a formação dos estudantes, o bem-estar das famílias e o serviço à comunidade, o trabalho passa a ser percebido como parte de uma missão.
Essa foi a principal reflexão de uma pesquisa apresentada em 21 de julho, durante a 42ª Standing Conference on Organizational Symbolism (SCOS 2026), realizada em Salvador, Bahia, Brasil. O evento reuniu pesquisadores de mais de 15 países para discutir como valores sagrados e espirituais e práticas simbólicas participam da vida das organizações.
O estudo, realizado com 338 profissionais, foi desenvolvido por Danilo Carvalho dos Santos, Eduardo Lopes dos Santos e Fábio Vinícius de Macedo Bergamo. Os participantes foram convidados a avaliar em que medida acreditavam que suas tarefas diárias melhoravam a vida de outras pessoas. Em seguida, o estudo analisou como essa percepção se relacionava com a experiência profissional dos participantes.
A pesquisa teve origem na dissertação de mestrado de D. Santos, desenvolvida no programa de Mestrado em Liderança da Universidade Andrews, nos Estados Unidos. E. Santos foi o orientador acadêmico e é professor de pós-graduação no Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP). Além disso, ele atua no sistema adventista de saúde na Flórida, Estados Unidos. Bergamo é professor do Mestrado em Comunicação do UNASP e da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Ele participou da ampliação teórica do estudo e foi responsável por sua apresentação na conferência.
Os resultados mostraram que os participantes tinham uma percepção elevada do impacto positivo de seu trabalho. Em geral, eles reconheceram que a qualidade das atividades realizadas poderia beneficiar estudantes, famílias e outras pessoas atendidas pela instituição.
A análise também identificou uma associação significativa entre a percepção da importância da tarefa e a satisfação profissional. Esse fator explicou 37,3% da variação observada na satisfação no trabalho.
O estudo pode ser ampliado para compreender a presença do sagrado na Educação Adventista.
A espiritualidade não se manifesta apenas em cultos, momentos devocionais ou no ensino religioso. Ela também pode estar presente na maneira como professores, gestores e profissionais das áreas administrativas e operacionais compreendem o significado de suas tarefas.
Quando um professor reconhece que participa da formação integral de um estudante, quando um profissional de apoio compreende que seu trabalho contribui para um ambiente seguro e acolhedor ou quando um gestor percebe que suas decisões favorecem o desenvolvimento das pessoas, a missão espiritual ganha uma expressão concreta.
Nesse sentido, a importância da tarefa funciona como uma ponte entre a missão da Educação Adventista e o cotidiano de seus profissionais. O sagrado passa a fazer parte do trabalho quando servir a próximo deixa de ser apenas uma ideia abstrata e é reconhecido nas consequências práticas de cada atividade.
O contexto analisado também apresenta uma característica importante: os profissionais compartilhavam a mesma tradição religiosa da instituição. Isso cria uma forte possibilidade de alinhamento entre crenças pessoais, valores organizacionais e missão educacional.
Para os pesquisadores, esse alinhamento não significa que a afiliação religiosa produza automaticamente satisfação no trabalho. De acordo com o estudo, a missão se torna significativa quando os profissionais conseguem identificar como seu trabalho concretiza os valores anunciados pela instituição.
Dessa forma, a afiliação religiosa pode funcionar como uma estrutura simbólica e moral que conecta diferentes funções. Professores, gestores, secretários, profissionais da limpeza, técnicos e colaboradores administrativos desempenham tarefas distintas, mas todos podem reconhecer que participam da mesma missão educacional.
Esse reconhecimento compartilhado também pode fortalecer o senso de comunidade, pois os profissionais não estão unidos apenas por uma estrutura de trabalho, mas pela compreensão de que suas atividades convergem para um propósito comum.
Fábio Bergamo foi o responsável por apresentar o trabalho em congresso realizado na Bahia.
[Foto: Divisão Sul-Americana]
Estudo evidenciou os reflexos dos princípios cristãos na missão educacional.
[Foto: Divisão Sul-Americana]
Ao final da sessão, pesquisadores internacionais discutiram as formas pelas quais a Educação Adventista articula o profissionalismo, a identidade religiosa e a presença do sagrado na experiência cotidiana de seus colaboradores.
Segundo Bergamo, a participação em um evento internacional como esse demonstra que a Educação Adventista pode ser estudada não apenas a partir de sua proposta pedagógica, mas também como um ambiente relevante para a compreensão de temas como liderança, espiritualidade no trabalho, cultura organizacional, propósito e formação de comunidades. “Levar um objeto de pesquisa como a Educação Adventista para um evento de tamanha relevância internacional mostra que podemos contribuir, com elevado nível de qualidade, para diversas áreas do conhecimento”, afirma Bergamo.
Os autores destacaram que a espiritualidade não deve ser utilizada para substituir o reconhecimento, as boas condições de trabalho ou as práticas adequadas de gestão.
Compreender o trabalho como uma missão pode fortalecer o senso de propósito, o pertencimento e a satisfação dos profissionais. No entanto, essa experiência precisa ser acompanhada de valorização, justiça organizacional, diálogo e cuidado com as pessoas. A pesquisa mostra, portanto, que a missão da Educação Adventista se fortalece quando cada colaborador consegue perceber que sua função tem valor e gera impacto.
O artigo original foi publicado no site de notícias da Divisão Sul-Americana.






