Em qualquer manhã de sábado na União do Lago, nos Estados Unidos, é possível ouvir cultos em espanhol, ucraniano, crioulo haitiano, birmanês ou inglês, vozes erguidas em louvor por famílias que agora chamam o Meio-Oeste de lar. Mas, nos últimos meses, outra realidade tem ocupado os bancos da igreja: uma incerteza silenciosa e persistente.
No centro dessa inquietação está um mosaico de mudanças nas políticas de imigração que afetam centenas de milhares de pessoas em todo o país, muitas delas membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Alguns aguardam que o governo decida o destino de programas humanitários que antes lhes permitiam trabalhar. Outros se perguntam por quanto tempo ainda poderão permanecer empregados ou se a falta a uma audiência pode resultar em uma batida à porta. Alguns já começaram a arrumar as malas.
Nas associações de Indiana, Illinois, Região do Lago, Michigan e Wisconsin, pastores e coordenadores multiculturais afirmam que o impacto na vida das congregações é real.
“Todos os dias o nosso povo acorda com a mesma pergunta”, disse Vitalii Hanulich, pastor da Igreja Ucraniana em Chicago, na Associação de Illinois. “Devo esperar? Devo ir embora? Ninguém sabe o que vai acontecer a seguir.” Quase todos os seus membros possuem uma combinação de parole humanitário e status de proteção temporária, o TPS (sigla do inglês), arranjos incertos que já expiraram para alguns e, para outros, como o próprio Hanulich, garantem uma prorrogação até o fim de 2026.
Eles não estão sozinhos. O TPS, um programa de imigração concedido a pessoas que não podem retornar com segurança aos seus países de origem, atualmente protege mais de 1 milhão de pessoas. Cinco países representam os maiores grupos: Venezuela, Haiti, El Salvador, Ucrânia e Honduras. Para muitas pessoas nos bancos da igreja, essa proteção é temporária e frágil.
Os mais de 90 mil membros da União do Lago incluem milhares de pessoas que se enquadram nessas categorias ou que convivem com familiares que se encontram nessa situação. As experiências variam amplamente. A maioria das comunidades relata um nível intenso de incerteza, especialmente quando seus membros estão sem documentos ou quando o status de proteção temporária já expirou. Ainda assim, independentemente da situação migratória, as igrejas agora precisam conduzir seu ministério em um ambiente no qual a insegurança jurídica molda silenciosamente a vida cotidiana.
O que se segue é um retrato deste momento, construído a partir de entrevistas aprofundadas com os cinco diretores multiculturais hispânicos da União do Lago, três pastores e um membro da igreja.
Ministério interrompido em toda a União
No oeste de Michigan, Richar Perez viu um grupo de estudos bíblicos, antes próspero, praticamente desaparecer da noite para o dia. Dez trabalhadores rurais estavam se preparando para o batismo. Perez, que é pastor, contou que um grupo de trabalhadores chegava à igreja no sábado de manhã e, em vez de participar da Escola Sabatina, reunia-se na capela para estudos bíblicos.
“Eles também estavam convidando outras pessoas para a igreja”, disse.
Então começaram a circular rumores de que agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas haviam feito uma operação em um pomar nas proximidades. Uma família havia faltado a uma audiência de imigração, e os agentes teriam ido até o local de trabalho deles. A partir daí, muitos passaram a temer que seriam os próximos.
“Em uma única semana, o grupo inteiro desapareceu”, disse Perez. “Alguns se mudaram para outros estados. Outros se esconderam. Alguns pararam de atender o telefone. Perdemos metade das pessoas.”
Daniele Spinosa, em Ann Arbor e Detroit, tem observado padrões semelhantes. Famílias que antes enchiam os bancos agora acompanham os cultos de casa. Outras, com medo de abordagens no trânsito ou fiscalizações no trabalho, retornaram a seus países de origem. Várias estavam se preparando para o batismo antes de desaparecerem. “Isso é desanimador para a igreja”, disse Spinosa.
Uma igreja em formação perde seu líder
Em Wisconsin, a incerteza é ainda mais evidente. O coordenador hispânico Evelio Miranda relatou a história do líder de uma igreja em formação em uma área rural do noroeste do estado. A congregação começou com estudos bíblicos em casas e havia se transformado em um pequeno grupo vibrante que se reunia todas as semanas.
O líder da igreja em formação vivia nos Estados Unidos havia 11 anos e trabalhava como carpinteiro, construindo galpões. Sustentava a família e apoiava fielmente a congregação local. Quando a polícia entrou em contato com ele por causa de uma antiga multa de trânsito, ele foi espontaneamente até a delegacia, acreditando que se tratava de algo rotineiro.
“Quando ele chegou, em vez de perguntarem sobre a multa, eles o detiveram”, contou Miranda.
O membro agora aguarda deportação. A esposa e os filhos estão devastados. Ele não tem documentos, mas dois dos filhos são cidadãos norte-americanos. A família está se preparando para a possibilidade de retornar ao México juntos, para não serem separados.
A igreja em formação perdeu não apenas seu líder, mas também seu centro espiritual. Os membros estão de luto. A frequência diminuiu. O futuro do grupo é incerto.
O medo mantém as famílias dentro de casa
Em Chicago, uma cidade alvo de operações de imigração, a incerteza é constante. Eva Cruz, membro da Igreja Hispânica do Sul desde a infância e integrante do Comitê Executivo da União do Lago, vê o medo remodelando a rotina diária. Sua igreja está localizada no cruzamento de vários bairros de imigrantes, reunindo membros de Pilsen, Cicero, Little Village e do corredor hispânico de Chicago.
Uma família que ela conhece já não sai mais de casa.
“Há um casal de idosos que decidiu literalmente se trancar no apartamento. Eles não saem. Os filhos levam comida, porque eles têm medo demais de sair sozinhos.”
Congregações haitianas abaladas
Em Indiana, a incerteza abalou congregações inteiras. Adventistas haitianos ficaram profundamente inquietos com o anúncio do governo de que o TPS para haitianos será encerrado em 3 de fevereiro.
O diretor de Ministérios Multiculturais da Região do Lago, Eddie Allen, que apoia igrejas haitianas em Indiana, contou que uma congregação havia planejado um culto de organização. A ideia era celebrar, mas os líderes decidiram adiar o evento.
Quando o culto finalmente aconteceu, meses depois, ele descreveu o que presenciou:
“O medo nos olhos e nos rostos. Eles até colocaram vigias, crianças pequenas olhando pela porta, alguém sentado dentro de um carro observando. Foi triste”, disse, com pesar.
O diretor de Ministérios Multiculturais de Indiana, Noel Ojeda, ouviu relatos semelhantes.
“Os membros estão avaliando se devem se mudar para o Canadá ou para outros países”, disse. “Eles não querem ser pegos em uma situação em que não possam ficar e também não consigam retornar em segurança.”
Atualmente, os Estados Unidos mantêm um alerta de “Não viajar” para o Haiti por causa de sequestros, instabilidade civil, violência e acesso limitado a serviços de saúde. São esses mesmos perigos que levaram muitas famílias a fugir do país.
Para além das comunidades hispânicas
A incerteza não se limita às congregações de língua espanhola ou francesa. Igrejas ucranianas, grupos birmaneses e congregações caribenhas também sentem a pressão.
Vitalii Hanulich afirmou que a frequência dos ucranianos na congregação que ele pastoreia caiu 10%. As ofertas diminuíram à medida que alguns membros perderam o emprego, já que empregadores hesitam em manter funcionários cujas autorizações de trabalho podem expirar. Quatro famílias já retornaram à Europa. Muitas outras estão avaliando suas opções.
“Temos crianças que estavam começando a prosperar aqui”, disse Hanulich. “Famílias que estavam reconstruindo suas vidas. Agora tudo voltou a parecer incerto.”
Uma estação difícil
Em toda a União do Lago, coordenadores de Ministérios Multiculturais descrevem este período como um dos mais difíceis que já enfrentaram. Eles passam os dias aconselhando famílias, atendendo ligações urgentes, conectando membros com advogados, orando com as congregações e tentando dar apoio a pastores que se sentem sobrecarregados.
Allen atua no ministério há quatro décadas.
“Este é o momento mais desafiador que já vivi”, afirmou. “O estresse, a ansiedade, a incerteza são reais. As pessoas se sentem vulneráveis.”
Nilton Garcia, coordenador de Ministérios Hispânicos da Associação de Michigan, compartilha do mesmo sentimento. Não se trata de histórias distantes sobre pessoas detidas para deportação, explicou. “São pessoas das nossas próprias igrejas.”
Um chamado à ação
Cruz afirma que a retórica agressiva tem alimentado o tratamento desumano de imigrantes e levado muitos hispânicos a se esconderem.
“Com a retórica atual, parece que você é um criminoso e, portanto, merece ser tratado como alguém sem valor.”
Ela acredita que a igreja precisa resgatar sua clareza moral.
“Não é crime estar aqui sem documentos”, disse. “Precisamos defender o que é certo e denunciar quando pessoas são tratadas de forma desumana.” Para Cruz, a questão não é política, mas espiritual. “Somos chamados a ser as mãos e os pés de Jesus”, afirmou com convicção.
Ojeda compartilhou da mesma preocupação. Segundo ele, as pressões relacionadas à imigração não devem dividir a igreja nem ser filtradas por lentes políticas. Em vez disso, “a igreja precisa responder com compaixão, e não com medo”.
Em novembro de 2025, a Associação da União do Lago divulgou uma declaração pedindo o tratamento humano dos imigrantes e reafirmando a dignidade de todas as pessoas. Coordenadores multiculturais afirmam que a declaração é importante, mas acreditam que as congregações locais também precisam tomar medidas concretas para apoiar as famílias afetadas. Eles esperam que as igrejas criem espaços seguros para aqueles que estão de luto ou com medo. Esperam que os membros defendam os que não têm voz e que as igrejas se tornem uma rede de mãos entrelaçadas que se sustentam mutuamente.
Allen acredita que a oração precisa ser acompanhada de ação. “Orar é importante”, disse. “Mas precisamos ir além das orações.”
Mantendo a missão em tempos de incerteza
Mesmo em meio à crise, a missão não parou. Ruben Bullón, líder de Ministérios Multiculturais da Associação de Illinois, lembra aos pastores que o ministério não pode ser colocado em pausa.
“A situação migratória vai mudar, assim como outras crises, como a pandemia, as recessões económicas e os ciclos políticos”, disse. “O que permanece constante é alcançar pessoas para Jesus. Pregamos Cristo, não a crise.”
Enquanto as igrejas tentam seguir em frente mesmo com grande parte de suas congregações sofrendo, o pastor Perez, de Michigan, e outros líderes procuram transmitir esperança.
“Deus está no controle”, ele lembra aos membros. “Esta vida é temporária. A nossa cidadania está no céu.”
E, sem minimizar a crise vivida nos bancos da igreja, Spinosa disse que incentiva os membros a enxergar a relocação forçada sob uma perspectiva missionária. Ele ensina que a deportação não representa o fim da missão. Se as famílias precisarem partir, ele lembra que o evangelho vai com elas. “A missão continua”, aconselha.
Hanulich continua batizando novos convertidos. “As pessoas ainda estão atendendo ao chamado de Deus”, afirmou. “Apesar da preocupação, há esperança.”
Embora a incerteza seja real, líderes da Igreja Adventista dizem que o evangelho de Jesus continua avançando, levado por congregações que sabem o que significa confiar em Deus em tempos desfavoráveis.
Assim, em qualquer manhã de sábado, entre vozes erguidas em espanhol, ucraniano, crioulo haitiano, birmanês e inglês, permanece um sussurro constante de fé: Deus ainda está conosco, compartilham os líderes. “Deus ainda está guiando. Deus ainda está chamando Seu povo para seguir em frente.”
A versão original deste artigo foi publicada no site Lake Union Herald.









