Tudo começou com a escolha de um assento. Em novembro de 2019, Edward Martin Allen embarcou em um voo de Omaha, Nebraska, com destino a San Diego, Califórnia. Ao se acomodar, percebeu que a pessoa ao seu lado trabalhava para a importante editora cristã Wm. B. Eerdmans. Duas horas e meia depois, Allen saiu do voo com um cartão de visita e um convite: levar seu coautor, Michael W. Campbell, para conversar sobre a publicação do livro sobre a história dos Adventistas do Sétimo Dia que ambos estavam desenvolvendo.
Após quase uma década de pesquisa, escrita e colaboração, A Global History of Seventh-day Adventists (História global dos adventistas do sétimo dia) agora está disponível mundialmente em grandes livrarias online, como Amazon, além de diversas livrarias locais. A proposta da obra é ser acessível e envolvente para diferentes públicos: desde membros da igreja interessados em conhecer melhor sua própria história até leitores sem familiaridade com o adventismo e estudantes universitários de história das religiões. O livro reúne cerca de 100 fotografias, quadros explicativos sobre diversos temas e perguntas para discussão, pensadas especialmente para uso em sala de aula.
A Global History foi lançado em fevereiro pelo Centro de Pesquisa Adventista da Universidade Andrews, em Berrien Springs, Michigan, durante um programa especial noturno transmitido ao vivo. O evento foi conduzido pelo conhecido pastor adventista Dwight K. Nelson e contou com a presença de diversos acadêmicos, líderes da igreja, membros da equipe da editora Wm. B. Eerdmans e outros interessados.
Campbell é diretor do Departamento de Arquivos, Estatísticas e Pesquisa da Divisão Norte-Americana, pastor ordenado da Igreja Adventista do Sétimo Dia, autor prolífico e ex-professor em nível de faculdade e universidade. Seu coautor, Edward Martin Allen, é professor emérito de religião na Universidade Adventista Union, em Lincoln, Nebraska. Ao longo de sua carreira na instituição, atuou como diretor acadêmico e também liderou o programa de religião.
Segundo Campbell, Allen e os estudiosos que avaliaram a obra, o grande diferencial deste livro em relação a outras histórias do adventismo é o seu alcance verdadeiramente global. Trabalhos anteriores, em geral, concentravam-se nas origens norte-americanas da igreja. Já esta obra acompanha o desenvolvimento do adventismo ao longo de diferentes séculos e continentes, situando a denominação dentro dos movimentos mais amplos da história mundial.
Allen exemplificou isso com a história de Fernando Stahl, um missionário cujo trabalho educacional entre comunidades indígenas ao redor do Lago Titicaca, no Peru, contribuiu para mudanças significativas na forma como essas populações eram integradas à sociedade. Hoje, Stahl é o único norte-americano com uma estátua no país.
O livro também analisa como o próprio contexto mundial influenciou o adventismo. Allen mencionou, por exemplo, o impacto do Movimento Voluntário Estudantil para Missões no Exterior, um movimento interdenominacional que enviou cerca de 20 mil missionários ao exterior entre 1890 e 1920. Essa iniciativa inspirou muitos adventistas e chegou a influenciar práticas da igreja, como o hábito das devoções matinais.
“O adventismo não surgiu isolado”, afirmou Rodney Palmer, diretor do Departamento de Religião e Línguas Bíblicas da Universidade Andrews, durante o painel que seguiu as apresentações de lançamento. “Colocar o adventismo em contexto e mostrar como os acontecimentos ao seu redor o influenciaram é algo extremamente valioso.”
Tanto os autores quanto os editores da Wm. B. Eerdmans destacaram o compromisso com uma abordagem histórica honesta. Campbell ressaltou que o livro não evita temas sensíveis, como a relação da Igreja Adventista com o Terceiro Reich e os debates contínuos sobre a ordenação de mulheres.
“Escrevemos a história que realmente encontramos nos arquivos”, disse Campbell, “e não a história que gostaríamos de ter encontrado.”
James Ernest, vice-presidente executivo e editor-chefe da Eerdmans, refletiu sobre essa tensão em seus comentários. Ele mencionou a distinção que o próprio livro faz entre historiografia e hagiografia, ou seja, entre narrar a história com base na realidade e simplesmente exaltar um grupo.
“Pelo que vocês escrevem, fica claro o quanto amam o tema”, disse ele aos autores. “Mas vocês contam essa história com honestidade. Não é preciso fingir que algo foi diferente do que realmente foi.”
O livro também faz um esforço intencional para contar histórias de membros comuns e dar espaço a vozes pouco representadas, incluindo mulheres cujas contribuições para a missão adventista raramente aparecem nos registros históricos. Michael W. Campbell relatou, por exemplo, a descoberta da história de Carmen Vaca, uma mulher indígena no Peru que batizou cerca de 40 pessoas em um único ano. Ele encontrou esse relato a partir de uma fotografia e de um breve artigo.
“Apenas porque você não conhece a história dessas pessoas não significa que elas não existiram”, afirmou Campbell. “Essa é a responsabilidade de uma nova geração de historiadores: voltar atrás e buscar essas histórias.”
O grupo de acadêmicos da Universidade Andrews demonstrou entusiasmo com a possibilidade de adotar o livro como material didático. O professor associado de Religião Erhard Gallos o descreveu como “atualizado, muito bom e acessível”, destacando que os textos clássicos anteriores sobre a história adventista já têm décadas e que um deles nem sequer está mais em circulação. Já Gerson Rodriguez, professor associado de História da Igreja, acredita que a obra deve substituir esses materiais: “Acredito que este será o livro-texto utilizado pelas faculdades no futuro.”
Campbell encerrou suas considerações refletindo sobre o que espera que o livro represente além de seu conteúdo: uma cultura colaborativa e encorajadora entre uma nova geração de historiadores adventistas.
“Percebo um bom espírito entre uma nova geração de historiadores adventistas, que está se esforçando para apoiar uns aos outros, celebrar e buscar o melhor no trabalho de cada um”, disse. “Precisamos praticar isso com mais frequência.”
O autor também comentou como o projeto o impactou pessoalmente. Ao escrever sobre relações raciais e justiça social na história adventista, afirmou ter sido desafiado a viver esses valores no presente, inclusive participando de marchas pacíficas ao lado de colegas afro-americanos durante o período em que lecionava no Texas.
“As histórias que contamos e a forma como as contamos são importantes”, disse Campbell.
A Global History of Seventh-day Adventists está disponível por meio da Wm. B. Eerdmans Publishing Company e nas principais livrarias.
O artigo original foi publicado no site de notícias da Divisão Norte-Americana.







