Na maioria das manhãs, Scott Smith inicia seu dia de trabalho como tantos outros caminhoneiros: acorda antes do amanhecer, entra na cabine e se prepara para longas horas na estrada. Mas, para ele, essas primeiras horas também se transformaram em um ponto de encontro que atravessa quase metade do mundo.
Há meses, Smith dedica suas manhãs a chamadas pelo WhatsApp com um homem que nunca encontrou pessoalmente, conduzindo estudos bíblicos enquanto percorre as rodovias do Kentucky, nos Estados Unidos. Do outro lado da ligação, a cerca de 13 mil quilômetros de distância, em Maharashtra, na Índia, Prakash Patil[*] ouve, estuda e compartilha com sua comunidade o que tem aprendido.
“Tudo começou com uma simples mensagem”, contou Smith. “[Patil] entrou em contato e disse: ‘Olá, irmão. Deus abençoe você e sua família. Por favor, ore pelo meu ministério.’”
O início da conversa
A mensagem chegou por meio do Facebook. Patil, um pregador cristão que atua em uma região onde o cristianismo representa apenas uma pequena parcela da população, foi apresentado a Smith de forma indireta por Jayah Shah, uma indiana que anteriormente frequentava a igreja de Leitchfield, no Kentucky, da qual Smith é membro. Acreditando que os dois poderiam se conectar, Shah compartilhou os perfis deles no Facebook.
“Ela estava certa”, disse Smith. “Quando [Patil] me pediu oração por seu ministério, quis saber mais, e ele me contou que ensinava crianças de sua comunidade sobre Jesus.”
Smith afirmou que o momento em que recebeu a mensagem chamou sua atenção. Ele a recebeu pela primeira vez enquanto participava do acampamento da Associação Kentucky-Tennessee, em 2025, onde dias de mensagens e comunhão já haviam direcionado seu foco para a missão. Quando Patil entrou em contato pedindo oração, Smith respondeu quase imediatamente, ligando para ele ainda naquela mesma semana, enquanto o acampamento acontecia.
Durante uma das primeiras conversas, Smith, que conheceu o sábado por meio de estudo pessoal da Bíblia em 2016, perguntou a Patil se ele estava familiarizado com esse ensinamento bíblico. Patil não estava e pediu que Smith o ensinasse.
“Era tudo o que eu precisava ouvir”, disse Smith, acrescentando que o momento o fez lembrar do homem etíope na Bíblia, que pediu orientação enquanto estudava as Escrituras.
Estudando na estrada
Com uma diferença de 10 horas entre o Kentucky e a Índia, os dois começaram estudos bíblicos regulares durante o acampamento e continuaram depois, com Smith ligando de seu caminhão pela manhã enquanto Patil acompanhava de sua casa, já tarde da noite. Os estudos frequentemente duravam mais de uma hora e, em pouco mais de uma semana, Patil chegou a uma convicção que transformou seu ministério pessoal.
“Quando comecei a estudar a Bíblia com o irmão Scott, não compreendia a bela verdade sobre o sábado”, disse Patil. “Eu tinha o desejo de entender o que isso significava e por que é importante para a oração e a adoração. Ao estudar as Escrituras todos os dias com o irmão Scott, passei a compreender seu propósito e suas bênçãos, e entendi que precisava compartilhar o que estava aprendendo com meu povo.”
Smith disse que ficou impressionado com a rapidez com que Patil respondeu ao que estava aprendendo.
“Ele mandou fazer um grande cartaz com Êxodo 20:8, ‘Lembra-te do dia de sábado, para o santificar’, e o colocou em seu local de ministério”, contou Smith. “Fiquei impressionado.”
Smith disse que incentivou Patil a dar o próximo passo, compartilhando as Escrituras de forma ainda mais ampla.
“Eu disse a ele: ‘Sabe o que você precisa fazer? Voltar à gráfica’”, contou Smith. “Falei que enviaria versos bíblicos para ele imprimir em inglês, marata e hindi e distribuir. Mas ele me disse que não podia fazer isso por causa da perseguição na região.”
Servindo em um contexto vulnerável
Segundo Patil, seu ministério funciona sob constante cautela. Em sua região, evangelizar abertamente entre adultos pode trazer sérias consequências, e distribuir materiais religiosos impressos pode ser perigoso. Por causa desses riscos, ele e sua esposa, Meena, têm concentrado grande parte de suas ações em alimentar crianças de sua vizinhança carente, muitas delas provenientes de famílias hindus ou muçulmanas.
“Há limites para o que podemos fazer publicamente”, disse Patil. “Precisamos pensar cuidadosamente em cada passo, então servimos as famílias de maneiras que tragam ajuda sem gerar riscos.”
Por meio das crianças, Patil tem visto a fé alcançar famílias inteiras. Inicialmente, os pais enviam os filhos porque sabem que haverá alimento. Com o tempo, à medida que as crianças voltam para casa falando sobre o que aprenderam, os pais ficam curiosos e começam a fazer perguntas.
“Hoje estamos vendo grandes bênçãos e crescendo na Palavra”, disse Patil. “É um começo pequeno. Às vezes tenho dificuldade para responder às perguntas das pessoas, então jejuo e oro por orientação, e vejo como Deus continua nos ajudando, inclusive por meio do irmão Scott, que também oferece orientação.”
Além disso, todos os sábados o casal prepara uma refeição vegetariana quente para adultos da comunidade que chegam com fome. Junto com o alimento, eles compartilham momentos de oração e lições bíblicas. Em sua aldeia, segundo Patil, comer todos os dias é considerado um sinal de riqueza.
“Posso ser pobre em alimento”, disse Patil, “mas sou rico em Jesus.”
Ao conhecer melhor o ministério de Patil e os desafios que ele enfrenta, Smith decidiu que a situação precisava ser compartilhada com sua própria igreja. Após ouvir a história, os membros da igreja de Leitchfield concordaram em oferecer apoio, ajudando a custear refeições, materiais escolares para as crianças e itens necessários para a adoração.
Continuidade do trabalho
Cerca de seis meses após o primeiro contato entre Smith e Patil, em novembro de 2025, as doações dos membros da igreja de Leitchfield permitiram que Patil adquirisse um conjunto para a Santa Ceia e realizasse uma refeição comunitária. Posteriormente, o grupo viajou cerca de uma hora até a igreja adventista do sétimo dia mais próxima, onde seis pessoas da comunidade de Patil foram batizadas.
“Sei que Deus está transformando vidas e há alegria no céu”, disse Patil. “Minha família e as pessoas da minha igreja compreenderam a bênção e a verdade. Aquele dia (dos batismos) me lembrou que Deus está conosco.”
Os membros da igreja de Leitchfield continuam reunindo ofertas semanais para apoiar o ministério de Patil e, até janeiro de 2026, quatro pessoas de sua comunidade seguem estudando a Bíblia em preparação para o batismo.
Às vezes, após longos dias de trabalho e horas na estrada, Smith chega em casa, veste um terno e participa, como pregador convidado, do grupo de estudo bíblico de Patil. Ele afirma que essa experiência reforçou sua convicção de que Deus atua por meio daqueles que estão dispostos a responder.
“Eu não sou ninguém”, disse Smith. “Sou apenas um velho prego enferrujado na parede, no qual espero que as pessoas consigam ver um quadro de Jesus pendurado. [...] Não fui eu que saí procurando alguém do outro lado do mundo (como Patil). Foi ele quem veio até mim. Ele bateu à porta. Tudo o que fiz foi abri-la.”
[*] O nome foi alterado por questões de segurança.
A versão original deste artigo foi publicada no site de notícias da União Sul, Southern Tidings.









