Pelo terceiro ano seguido, a Associação de Médicos Adventistas (AMA), organização de médicos adventistas do Brasil, realizou uma missão humanitária no Líbano, em parceria com o Winners Project — uma entidade beneficente que apoia crianças e adolescentes no Oriente Médio.
Durante 16 dias, de 18 de abril a 4 de maio de 2025, uma equipe médica brasileira prestou atendimento a cerca de 2.000 refugiados sírios e libaneses em Majdal Anjar e regiões vizinhas, incluindo campos de refugiados da ONU.
Apoio Médico e Emocional Completo
A missão incluiu consultas médicas gratuitas e distribuição de medicamentos, viabilizados por meio de doações que totalizaram 8 mil dólares (mais de 44 mil reais). A equipe voluntária contou com 22 profissionais de saúde, entre eles oito médicos — sendo cinco mulheres — com especialidades em ginecologia, mastologia, neurologia vascular, pediatria e clínica geral. O grupo também foi composto por psicólogos, fisioterapeutas, um dentista e um educador físico, oferecendo cuidado integral à população atendida.
O Dr. Fabiano Luz, médico intensivista e presidente da AMA, destacou a importância de ampliar o número de profissionais de saúde do sexo feminino na equipe, especialmente por conta das sensibilidades culturais da população atendida.
“Quando as queixas eram de natureza íntima, nem eu nem o tradutor podíamos fazer as perguntas clínicas necessárias às mulheres sírias. Apenas uma médica e uma tradutora podiam realizar esse tipo de atendimento”, explicou.
A edição deste ano contou com uma presença mais significativa de profissionais mulheres, com foco especial na saúde ginecológica das refugiadas sírias — um cuidado essencial, considerando as restrições culturais quanto ao atendimento por médicos homens nesses contextos.
Planejamento Coordenado e Foco na Missão
O projeto foi organizado pelo líder de missões da AMA, Dr. Edson Jara, pelo presidente da associação, Dr. Fabiano Luz, e pela médica neurovascular Dra. Ellen Carvalho.
“Ter participado do planejamento e da execução me fez admirar ainda mais a coordenação do projeto”, afirmou a Dra. Carvalho. “Apesar dos desafios, tive um profundo sentimento de missão cumprida. Tudo — desde hospedagem e alimentação até escalas de trabalho e seguros — foi cuidadosamente preparado para que os voluntários pudessem se concentrar apenas em servir.”
Identificação de Problemas Graves de Saúde
O Dr. Fabiano Luz relatou condições alarmantes de saúde pública entre a população libanesa atendida pela equipe, destacando que cerca de 90% dos pacientes eram fumantes — alguns consumindo até quatro carteiras de cigarro por dia. Esse hábito extremo tem contribuído para a alta incidência de doenças respiratórias, além de aumentar os riscos de infarto e a necessidade de cirurgias.
A equipe também atendeu pacientes sírios com traumas não tratados, incluindo dois casos de pessoas com projéteis de arma de fogo alojados no corpo. “Eles nunca haviam sido diagnosticados por falta de acesso ao atendimento médico”, explicou Luz.
A missão permitiu identificar diversos problemas médicos sérios, como tumores uterinos e ovarianos, câncer de mama e nódulos com potencial cancerígeno. “Diagnosticamos muitas doenças que causavam enorme sofrimento aos pacientes”, acrescentou.
Um dos casos mais marcantes envolveu uma criança de dois anos, neto de um líder de campo de refugiados, que apresentava coloração azulada quando ficava agitado. O Dr. Luz diagnosticou uma comunicação interventricular (CIV) e encaminhou a criança para cirurgia.
“O mais doloroso é saber que essa criança nasceu em um hospital no Líbano, mas, por ser síria e refugiada de guerra, nunca recebeu o cuidado que precisava”, lamentou.
Atenção Especial à Saúde da Mulher
A ginecologista Dra. Karin Kiefer Martins atendeu diversas mulheres que apresentavam sintomas como sangramentos irregulares, fadiga e deficiências no desenvolvimento.
“Muitas meninas apresentavam sinais claros de desnutrição”, relatou a Dra. Karin Kiefer Martins. Ela também destacou o contraste com a realidade brasileira, especialmente em relação ao Sistema Único de Saúde (SUS).
“No Líbano, é preciso pagar por qualquer atendimento — e muitos simplesmente não têm condições.”
A Dra. Ellen Carvalho, que atendeu principalmente mulheres com demandas neurológicas, acrescentou:
“A minha maior alegria foi servir crianças e mulheres nos campos de refugiados, que nos retribuíram com amor e gratidão, mesmo diante do pouco que pudemos oferecer. Foi emocionante ver profissionais dando o melhor de si em condições tão desafiadoras.”
Atendimento Psicológico e Serviços de Fisioterapia
A psicóloga Tatiana Alvarenga de Oliveira viajou com suas duas filhas e o genro — ambos médicos — e ofereceu atendimentos individuais. Ela relatou altos índices de ansiedade e depressão entre os pacientes e ministrou palestras a jovens sírios, incluindo alunos de projetos de esporte e costura. Também ofereceu suporte emocional aos tradutores e demais voluntários da equipe.
“Não podíamos falar de religião; precisávamos ser Jesus sem dizer o nome d’Ele — por meio do serviço, do sorriso e do acolhimento”, afirmou.
Os fisioterapeutas Vinicius Coelho e Suzely Ferreira participaram da missão em 2024 e retornaram em 2025. Suzely concentrou seu atendimento em mulheres com dores e dificuldades de mobilidade, organizando sessões de Pilates pela manhã e à tarde.
“Algumas pacientes chegavam com dores intensas nos quadris, joelhos e pescoço. A cada aula, observávamos progresso, e a dor começava a desaparecer”, relatou.
Com o avanço nos exercícios, muitas mulheres conseguiram retomar atividades cotidianas que antes pareciam impossíveis — como agachar, levantar os filhos no colo ou alcançar objetos em prateleiras.
Uma Missão de Compaixão
Ao refletir sobre a experiência, o Dr. Fabiano Luz destacou que, embora já tenha participado de diversas missões humanitárias — incluindo na Amazônia, África, Índia, Peru e Argentina — atuar com refugiados de guerra teve um impacto único.
“Foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. O sofrimento dessas pessoas é profundo, mas a maneira como reagem com gratidão, mesmo recebendo tão pouco, nos transforma por dentro. É a essência da compaixão em ação.”
Equipe feminina da AMA, em frente a Mesquita Azul, a maior mesquita de Beirute, Líbano.
Foto: Divulgação
Ruínas de Balbeck, Líbano.
Foto: Divulgação
“O povo sírio enfrenta um passado destruído, um presente difícil e um futuro incerto, vivendo em um país que os rejeita e sofre com o peso de suas necessidades”, declarou. “Pela graça de Deus, pudemos oferecer um pouco de alívio, cuidado e conforto. Foi um privilégio poder servi-los.”
A versão original deste artigo foi publicada no site de notícias da Divisão Sul-Americana em português. Entre no canal da ANN no WhatsApp para acompanhar as últimas notícias da Igreja Adventista.









