New York, New York, United States | Andrew McChesney, Adventist Mission

Um adventista do sétimo dia que salvou a vida de centenas de órfãos durante o genocídio de 1994 em Ruanda, juntou-se ao secretário-geral das Nações Unidas e outras figuras ao dirigir a palavra durante uma cerimônia comemorativa especial na sede da ONU em Nova York.
 
Mas o discurso foi apenas um dos 11 feitos na semana passada por Carl Wilkens, que estava trabalhando como diretor da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais em Ruanda, quando a violência irrompeu, matando cerca de 800.000 pessoas em três meses. Dois discursos foram pelo sistema Skype, e ele também se reuniu com estudantes em oito escolas secundárias e faculdades em Nova Jersey e Pensilvânia.
 
Wilkens vê compromissos de palestras como uma oportunidade de compartilhar sua fé através do relato de histórias, semelhantemente ao que Jesus fez no Sermão da Montanha em Mateus 5. “A mensagem que Jesus deu em Mateus 5 é: ‘Se você abrir o seu coração a outras pessoas, há uma chance muito maior de que elas abrirão seus corações ao Pai’”, disse Wilkens à Missão Adventista. “Então, eu compartilho histórias do meu coração”.
 
Uma história favorita se desenrolou no início do genocídio. Várias mulheres vizinhas impediram que um grupo de homens armados entrasse na casa que Wilkens compartilhava com a esposa, Teresa, e três filhos pequenos na capital de Ruanda, Kigali. As mulheres convenceram os homens a saírem, dizendo: “Seus filhos brincam com os nossos filhos”.
 
“Eu digo às pessoas que esta foi a obra de Deus”, disse Wilkens na entrevista.
 

Intervenção sobrenatural 

Ao relatar a história a 80 alunos de uma escola em Nova Jersey, Wilkens disse que Deus poderia ter intervindo sobrenaturalmente colocando um escudo invisível em torno de sua casa. “Mas acredito que também foi sobrenatural aquelas mulheres ficarem em frente de nossa casa e parar os homens com facões e armas e dizer: ‘Não, vocês não podem ir lá’”, contou ele. “Isso é para mim uma ilustração ainda mais poderosa da intervenção divina do que um escudo invisível. Creio que o fato de que nossos filhos brincavam com as outras crianças por quatro anos foi uma parte-chave da intervenção divina”, disse ele. “Deus viu o que estava por vir, e usou as relações que as crianças estavam construindo, apenas brincando ao redor do bairro, para construir laços com essas mulheres”.
 
Mais frequentemente do que fornecer um escudo invisível, Deus intervém trabalhando através das decisões das pessoas, comentou, citando como exemplo a decisão de seus filhos de brincarem com as outras crianças. “Então, podemos tomar decisões para mostrar às pessoas o quanto respeitamos a Deus, mostrando-lhes o quanto respeitamos a criação de Deus, as pessoas”, disse ele.
 
Wilkens e sua esposa, graduados da Walla Walla College (agora Walla Walla University) no estado de Washington, voaram para a África como missionários em 1981. Seus dois primeiros filhos nasceram no Zimbábue e o seu terceiro filho nasceu enquanto Wilkens estudava na Universidade de Baltimore em Maryland. Após sua formatura, a família mudou-se para Ruanda em 1990.
 
Quando o genocídio estourou em 7 de abril de 1994, Wilkens enviou sua família para segurança, mas insistiu em ficar para trás para levar comida, água e remédios para órfãos que terminaram prisioneiros das circunstâncias em Kigali. Credita-se o salvamento de centenas de vidas a suas ações corajosas. Durante grande parte do conflito, ele foi o único cidadão dos EUA em Ruanda.
 

Sentimentos Mistos na ONU 

Wilkens teve sentimentos mistos quanto a falar na sexta-feira, 7 de abril, na ONU, que ele acredita que poderia ter evitado muito derramamento de sangue. “Considero a ONU extremamente responsável pela perda de tantas vidas”, disse ele. “Dispunha de 2.500 soldados com quem o povo estava contando. A ONU estava protegendo as pessoas nas escolas, mas retirou a maior parte de suas tropas e as deixou sem proteção”. Em seu discurso de seis minutos transmitido pela Web TV da ONU, Wilkens pediu desculpas por manter raiva contra a ONU por muitos anos. “Este é meu próprio esforço . . . para a cura”, disse ele sobre suas desculpas.
 
Falando à Missão Adventista, Wilkens disse que aceitou um convite do embaixador da ONU em Ruanda para falar pela mesma razão que ele aceita centenas de outros convites. “Ao compartilhar histórias, posso falar sobre os valores em que acredito, valores centrais que vêm dos ensinamentos de Jesus”, disse ele.
 
Entre outros oradores na sexta-feira estavam o secretário-geral da ONU António Guterres; Durga Prasad Bhattarai, vice-presidente da Assembleia Geral da ONU; Sonia Mugabo, sobrevivente do genocídio; e Valentine Rugwabiza, embaixadora de Ruanda na ONU.
 
Wilkens voltou aos Estados Unidos depois que o genocídio terminou e serviu por 11 anos como o capelão na academia adventista de Milo em Oregon. Uma entrevista de 2004 que ele deu para um documentário de televisão dos EUA sobre o genocídio provocou uma enxurrada de compromissos de palestras, e em 2008 ele fez seu trabalho em tempo integral como diretor e co-fundador da organização não-governamental World Outside My Shoes [O Mundo Fora de Meus Sapatos].
 
“Estou muito grato ao Pai pelo amor que tenho experimentado em minha vida, e quero expressar essa gratidão aos outros”, disse Wilkens.

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