Há quase 150 anos, Ellen G. White visualizou a literatura adventista “espalhada como folhas de outono” (Testemunhos para a Igreja, 9:230), alcançando lugares onde os pregadores não conseguem chegar. Mantendo viva essa visão, a ANN conversou com líderes de seis ministérios de publicações adventistas que estão expondo na Assembleia da Associação Geral deste ano, em St. Louis. Eles mostraram como as páginas à moda antiga e a tecnologia moderna podem trabalhar lado a lado — e por que um livro impresso, mesmo em um mundo digital, ainda tem o poder de transformar mentes e corações.
Colportor: Cadeia Simples, Impacto Duradouro
Na última década, Almir Marroni, ex-diretor de publicações da AG, colocou 55 milhões de exemplares impressos de O Grande Conflito em circulação, com milhões de cópias adicionais baixadas em formato digital. Quando perguntado sobre a logística necessária para alcançar essa escala, ele apontou para uma cadeia “desarmadoramente simples”: gráficas enviam para as divisões e uniões; as uniões repassam para as associações; as associações distribuem para as igrejas locais; e voluntários organizados se tornam embaixadores da linha de frente, levando os livros até as portas das casas. Os recursos digitais ajudam, disse ele, mas o livro físico ainda é essencial para a missão:
“Um arquivo digital se perde no rolar infinito do celular ou do computador, mas um livro impresso continua sussurrando: ‘Por favor, leia-me, por favor, leia-me.’”
Marroni acredita que, daqui a uma década, as plataformas online irão ampliar o alcance da mensagem, mas insiste que as visitas de sábado à tarde às casas do bairro continuarão sendo o “ponto mais forte” do movimento.
Streams of Light International: Ministério de Porta em Porta em Ação
Enquanto colportava na Califórnia, Oleg Lotca chegou a uma casa onde uma família estava vidrada em uma partida de futebol na TV. Com gentileza, insistiu, e o pai de quatro filhos — que recentemente havia recebido um alerta médico após um AVC — o convidou para uma breve conversa sobre saúde. Essa visita curta floresceu em meses de refeições à base de plantas na casa do pastor local, estudos bíblicos, uma cerimônia de casamento e, eventualmente, o batismo de toda a família, que agora serve como missionária voluntária.
A organização Streams of Light tem como meta colocar O Grande Conflito e uma revista de saúde complementar em cada lar da América do Norte e Europa até 2030. A estratégia se baseia em três pilares:
Treinar igrejas locais para colportarem em suas próprias ruas
Viagens missionárias com centenas de voluntários
Uma escola missionária que multiplica instrutores para novos territórios
Cada volume contém QR codes que conectam os capítulos a recursos em vídeo e áudio — unindo a permanência do impresso à interatividade digital.
“Quando aquele homem desligou a TV e disse: ‘A saúde é mais importante que o futebol’, eu vi uma visita transformar uma família — e, por meio dela, uma comunidade,” lembrou Lotca.
Daniel Dreamgazer: Drama Apocalíptico para a Geração dos Quadrinhos
O escritor e produtor Wayne Jamel criou Daniel Dreamgazer, a primeira série adventista de graphic novels (romances gráficos) em formato completo, com o objetivo de alcançar adolescentes e jovens adultos que acabam ficando à margem entre os programas infantis e os seminários para adultos.
“Nossa tarefa mais difícil é simplesmente fazer com que as pessoas saibam que o livro existe”, disse Wayne Jamel. Um segundo desafio está relacionado à expectativa visual, já que os leitores discutem o estilo artístico e a etnia dos personagens. A equipe de Jamel optou por retratar traços judeus historicamente plausíveis, reconhecendo que “não dá para agradar a todos.”
Para quem deseja criar suas próprias histórias em quadrinhos, Wayne explica que todas as ilustrações são feitas à mão em um tablet Cintiq, usando o software Clip Studio Paint. As cores são aplicadas no Photoshop, o design é finalizado no InDesign e os trechos animados são editados no Premiere. “Nada é gerado por inteligência artificial,” destacou Jamel, acrescentando que a equipe ora por cada painel porque “uma imagem pode pregar mil palavras.”
A equipe já planeja novas narrativas bíblicas no formato romance gráfico.
Revista Liberty: Promovendo Liberdade Religiosa entre os Formadores de Opinião
Fundada em 1906, a revista Liberty tem como público-alvo legisladores, juízes, advogados e acadêmicos, oferecendo a perspectiva da Igreja Adventista sobre liberdade religiosa. A editora Bettina Krause afirma que a revista bimestral de 24 páginas oferece aos tomadores de decisão uma visão bíblica sobre as relações entre igreja e Estado — algo impossível de expressar em publicações rápidas nas redes sociais. Um dos temas mais debatidos atualmente é a interseção entre os direitos LGBTQ e a liberdade religiosa.
Liberty defende que leis robustas contra a discriminação podem coexistir com uma liberdade religiosa igualmente forte, desafiando a ideia de que a sociedade precisa escolher entre uma ou outra. Krause também lembra aos políticos que os adventistas não buscam poder civil para impor crenças.
“Servimos a um Deus de liberdade e livre-arbítrio, por isso não usamos o poder político para forçar os outros”, explicou Krause. “Isso surpreende muitos formuladores de políticas, que esperam que os cristãos exijam leis que imponham suas crenças à sociedade.”
Safeliz: Tornando as Escrituras Acessíveis a uma Igreja Global
A editora Safeliz, com sede na Espanha, publica em mais de 40 idiomas e envia materiais para 120 países, com logística de impressão centralizada em Bangkok. O gerente de negócios, Sergio Mato Rhiner, destaca que hoje a editora imprime cerca de um milhão de Bíblias anotadas por ano, para ministérios que vão desde o infantil até o pastoral. As decisões entre impresso e digital dependem da demanda prevista, e a sustentabilidade é um princípio orientador: o papel usado nas Bíblias vem de florestas renováveis, e o corte das páginas é cuidadosamente calculado para reduzir o volume do frete.
Um destaque recente foi o projeto “Israel para Cristo”, que doou 100.000 exemplares do livro Caminho a Cristo em nove idiomas — árabe, inglês, francês, hebraico, romeno, russo, ucraniano e duas línguas africanas. Os livros foram entregues aos 800 membros adventistas de Jerusalém, que distribuíram todos os exemplares em apenas duas semanas, pouco antes do início da guerra.
“Todo projeto precisa passar por um único filtro”, disse Mato Rhiner. “Isso vai ajudar as pessoas a lerem a Bíblia e a orarem? Se sim, então imprimimos.”
Pacific Press: Impressos, Audiolivros e Podcasts para Todos os Perfis de Leitor
A Pacific Press transformou seu estande em um verdadeiro laboratório híbrido: os livros trazem adesivos com QR Code que levam ao site AdventistBookCenter.com, onde os visitantes podem acessar prévias de e-books e audiolivros. Segundo a gerente de marketing Alicia Adams, os leitores estão divididos em dois grupos: alguns ainda querem o livro físico como segurança, caso percam acesso ao dispositivo ou à nuvem; outros já abandonaram totalmente o papel em favor dos e-books — e a cultura de transporte público tem impulsionado o número de downloads no Audible.
“Muita gente ainda deseja ter um livro nas mãos, mas outros preferem carregar uma biblioteca inteira no celular — por isso, produzimos algo para todos os gostos”, afirmou Adams.
A Pacific Press trabalha com três fontes de conteúdo: selos editoriais clássicos, contratos para impressão de livros, distribuição de títulos autopublicados. Além disso, investe fortemente em áudio e vídeos curtos para redes sociais. Apesar das impressoras modernas conseguirem produzir milhares de livros por hora, há escassez de operadores capacitados, e o papel está cada vez mais caro, o que tem levado a editora a diversificar seus formatos.
Das visitas de porta em porta às compras por QR Code, os publicadores adventistas unem métodos tradicionais com tecnologias modernas. Seja no papel ou na tela, um bom livro ainda alcança corações — um exemplar, uma família, um leitor por vez.
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